Um caderno aberto com as folhas em branco, um lápis e um apontador sobre ele.

A folha branca do caderno aberto. Rabiscos vacilantes, tentativas de reprodução da instrução recebida na aula. Letras alinhadas em palavras, palavras em frases, frases em sentidos toscos de um aprendizado iniciante. Penosos primeiros passos na longa estrada da busca pela erudição.

Horas a fio com a atenção debruçada sobre os livros. Ideias sugadas do escrito para dentro do crânio, como um lento e laborioso aspirador de sapiência. A cabeça latejante, pensamentos embaralhados, o peso do conhecimento acumulado nos olhos.

Caracteres andantes, de repente flutuantes e então rodopiantes. O branco das páginas misturado ao negro da tinta, num túnel suspenso de abstração e infinitude. A mente arrancada da realidade, simplesmente sorvida para outro universo, ligeiro como a limonada pelo canudo num dia quente de verão.

No mundo de papel, uma multidão de tipos: gordos, magros, altos e baixos. Alguns de chapéu, outros de braços esticados, uns expansivos de pernas longas e muitos em poses esquisitas. Cada um com um som diferente, todos misturados, um fuzuê crescente, cada vez mais símbolos reunidos, o espaço mais e mais apertado.

Em um impulso claustrofóbico, a tentativa de fuga. Um rodopio na procura por uma saída, um esbarrão, uma queda e um grito. Rostos coléricos voltados de súbito para a origem da perturbação. Uma corrida desesperada em qualquer direção, seguida de guerreiros armados com travessões, parênteses e pontos de interrogação. Granadas de aspas e vírgulas atiradas ao bel-prazer de adversários sedentos por reparação.

A chegada à borda do volume, um momento decisivo: uma luta sangrenta contra os ferozes mensageiros da linguagem ou um salto covarde para o abismo vazio. O medo da morte suprimido pela piedade diante da possibilidade de assassinato de tão necessários instrumentos da comunicação; o pulo libertador para o nada.

Um voo leve, como o sono profundo de um cérebro exausto pelo estudo. Escuridão e silêncio. Então luz e o despertar da cidade. A face iluminada pelo sol e o canto de um pássaro na janela. O início de mais um dia de batalhas. Armas em punho: caneta, lápis, borracha e apontador. Hoje sem descuidos ou distrações.

Rumo à vitória!


Nota: Escrevi este texto como exercício durante um curso de ficção relâmpago. A ideia era brincar com a forma da linguagem. Sempre ouvi na escola que o verbo é a parte mais importante da oração. Por isso, resolvi experimentar e ver se conseguia escrever uma história sem nenhum verbo.


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